Santa Catarina se torna referência mundial em conservação e turismo responsável

Santa Catarina se torna referência mundial em conservação e turismo responsável

Compartilhe:

WhatsApp
Facebook
Twitter
LinkedIn
baleia-franca,baleia-franca em Santa Catarina,conservação da baleia-franca,Santa Catarina conservação ambiental,APA da Baleia Franca,Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca,turismo em Santa Catarina,turismo sustentável em Santa Catarina,turismo regenerativo,observação de baleias,whale watching,Instituto Australis,ProFRANCA,conservação marinha,turismo de natureza,turismo responsável,Área Patrimônio de Baleias,Whale Heritage Area,Imbituba,Florianópolis,Balneário Rincão,proteção ambiental

A unidade de conservação mais visitada do Brasil não fica na Amazônia nem em nenhum dos grandes parques nacionais do país. Ela está no litoral de Santa Catarina: mais de nove milhões de pessoas passaram pela Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca em 2025, segundo dados do ICMBio.

O motivo por trás desse número é, à primeira vista, contraintuitivo. Na APA, criada há 26 anos para proteger o principal berçário da espécie ameaçada de extinção, a observação embarcada de baleias é proibida desde 2013.

Enquanto a maior parte dos destinos de whale watching no mundo compete para aproximar turistas dos animais, o litoral catarinense fez o oposto e transformou a restrição em seu maior ativo turístico.

A proteção do território, que hoje soma 156 mil hectares e 130 quilômetros de costa, entre Florianópolis e Balneário Rincão, ocorreu em nome de uma espécie que, décadas atrás, havia praticamente desaparecido da costa brasileira. Entre 1973 e meados dos anos 1980, não existe um único registro de baleia-franca-austral (Eubalaena australis) no litoral do país, resultado de séculos de caça voltada à extração de óleo para iluminação.

Hoje, a população monitorada pelo Instituto Australis soma cerca de 800 indivíduos e cresce a uma taxa de 4,8% ao ano, considerando uma série histórica de 20 anos. Em 2026, o primeiro avistamento da temporada ocorreu em maio — um dos registros mais precoces já feitos —, sinal de que a curva de recuperação segue firme. Em agosto, a entidade registrou o avistamento recorde de 173 animais em um único dia entre Florianópolis e Torres (RS), sendo 98 apenas em Imbituba.

Sem barcos se aproximando das enseadas onde as fêmeas dão à luz, a experiência de observação foi reconstruída a partir de praias, dunas, trilhas e mirantes. A baleia continua sendo a protagonista, mas o produto turístico passou a ser o território.

“A experiência de observação tende a aumentar o interesse dos visitantes pela espécie. Eles procuram nosso centro para saber mais sobre o trabalho de conservação, e isso fortalece a percepção da importância de proteger esse patrimônio natural, um importante instrumento de proteção da baleia-franca”, afirma Karina Groch, bióloga e diretora de Pesquisa do ProFRANCA/Instituto Australis, Centro Nacional de Conservação da Baleia Franca.

Esse modelo levou o berçário catarinense a se tornar, em dezembro de 2025, a primeira Área Patrimônio de Baleias (Whale Heritage Area) do Brasil e a segunda da América Latina. O reconhecimento é concedido pela World Cetacean Alliance a destinos que equilibram conservação, ciência, cultura comunitária e turismo responsável. A região se junta a outros 11 destinos no mundo, entre eles Madeira, em Portugal, e Hervey Bay, na Austrália.

Um diferencial que vai além das baleias

Na mesma faixa de litoral, outro fenômeno reforça o caráter único da região: pescadores artesanais e botos-nariz-de-garrafa cooperam na captura da tainha, com os botos sinalizando a localização dos cardumes para as redes. O comportamento já foi certificado como patrimônio cultural imaterial, e o estado é apenas o segundo lugar do mundo onde essa interação foi documentada.

A cadeia de capacitação profissional acompanha esse padrão. Um levantamento do Instituto Australis com 27 guias e condutores da APA, publicado na revista Turismo e Sociedade, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), mostra que boa parte desses profissionais não se define apenas como condutor turístico: eles se veem como educadores ambientais e mediadores entre a ciência e o visitante.

Na Canyons do Brasil, empresa de turismo que trabalha com observação de baleias no sul do estado, os roteiros incluem capacitação contínua junto ao Instituto Australis e visita ao Centro Nacional de Conservação da Baleia Franca, em Imbituba, onde fica o único esqueleto completo de uma baleia-franca adulta exposto no litoral brasileiro.

“Para minimizar o impacto, trabalhamos com grupos reduzidos de até 8 a 10 pessoas, sempre utilizando as trilhas, com atenção aos impactos sonoros. Anteriormente, de junho a outubro era o melhor período de observação; este ano, em abril, as baleias já começaram a chegar”, afirma Guilherme Mainieri, proprietário da empresa.

Por ocorrer no inverno, a temporada redesenha a economia de municípios que historicamente dependiam quase exclusivamente do verão. Hospedagem, gastronomia, transporte e comércio local passam a girar também entre junho e novembro, característica que aproxima o modelo catarinense dos princípios do turismo regenerativo. Mais do que reduzir impactos, o objetivo é gerar legado positivo para o território.

Um modelo sob ameaça

É justamente esse território que está em disputa. Um Projeto de Lei da deputada federal Geovania de Sá (Republicanos-SC) propõe excluir toda a porção terrestre da APA — cerca de 34 mil hectares, quase 20% da unidade. Na última semana, a Câmara dos Deputados aprovou regime de urgência para a proposta, o que permite que ela vá diretamente a votação em plenário, sem passar pelas comissões técnicas.

Geovania usou a expressão “desenvolvimento econômico sustentável” para justificar a aprovação de seu projeto, que corrigiria a insegurança jurídica de famílias que vivem em áreas urbanizadas do território desde antes da formalização da APA.

Mas ambientalistas temem que a liberação provoque o crescimento da especulação imobiliária e a construção de hotéis e grandes edifícios na região. Além da baleia-franca, entre as espécies ameaçadas protegidas estão a tartaruga-cabeçuda, a tartaruga-verde e a toninha.

A Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação classificou a proposta como um retrocesso que “carece de fundamentação técnica e jurídica”, em nota que destaca que quase 300 instituições estiveram envolvidas na delimitação original da APA. Pesquisadores e o próprio ICMBio alertam que a exclusão da faixa terrestre comprometeria restingas, dunas, manguezais, lagoas e remanescentes de Mata Atlântica — ecossistemas que sustentam tanto a baleia-franca quanto a experiência turística que tornou o estado referência internacional.

“Santa Catarina prova que conservação não é o oposto do desenvolvimento, e sim o seu motor. A APA da Baleia Franca é hoje a unidade de conservação mais visitada do Brasil porque escolheu proteger em vez de aproximar. É esse modelo, baseado nos princípios do turismo regenerativo, que deve orientar o futuro do turismo de natureza no país”, afirma Lejania Malheiros, presidente da Abeta – Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura.

Na visão da entidade, o momento reforça a importância de proteger um modelo construído ao longo de 25 anos e hoje reconhecido internacionalmente como referência em conservação marinha.

Relacionados