O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, na quarta-feira (21 de outubro), o Projeto de Lei Complementar (PLP) nº 186/2026, que prevê o perdão de dívidas de microempreendedores individuais (MEIs) com a União e amplia o limite anual de faturamento da categoria. Na mesma data, o presidente encaminhou ao Congresso Nacional uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para destinar recursos de emendas parlamentares ao custeio da gratuidade no transporte público coletivo urbano, com potencial para financiar a tarifa zero aos fins de semana e feriados.
A lei integra o Prospera MEI, pacote lançado pelo Governo Federal para reduzir o endividamento, facilitar o acesso a recursos para investimentos e simplificar a rotina dos pequenos empreendedores. A iniciativa pode beneficiar 17,6 milhões de profissionais, dos quais 7,8 milhões são mulheres.
Já a PEC estabelece a destinação de, no mínimo, 26,8% do montante anual das programações de execução obrigatória provenientes de emendas parlamentares individuais e de bancada para custear a gratuidade do transporte coletivo. A proposta preserva os recursos destinados às ações e aos serviços públicos de saúde e prevê a transferência obrigatória dos valores aos entes federados responsáveis pelos serviços.
Prospera MEI amplia benefícios para pequenos negócios
O PLP nº 186/2026 altera a Lei Complementar nº 123/2006, que estabelece as regras do Simples Nacional. Entre as mudanças estão a atualização do limite de receita bruta anual, a ampliação do número de empregados que podem ser contratados pelos MEIs e novas condições para a remissão de créditos de titularidade da União.
Perdão de dívidas com a União
A lei prevê a remissão integral dos débitos tributários federais dos MEIs de titularidade da União, inscritos ou não na Dívida Ativa da União até 13 de outubro de 2026. O benefício abrange o valor original das contribuições previdenciárias em atraso, multas, juros e encargos de cobrança, inclusive dívidas ajuizadas ou parceladas.
A medida entra em vigor em 1º de janeiro de 2027 e prevê o perdão automático das dívidas, sem necessidade de solicitação à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN).
Para manter o benefício, o empreendedor deverá pagar em dia as guias mensais do Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS) durante os seis meses seguintes à entrada em vigor da lei.
A remissão também alcança o saldo devedor de parcelamentos em andamento, mas não permite a devolução de valores já pagos. Os microempreendedores com processos judiciais em andamento para contestar as dívidas deverão desistir das ações para obter a baixa definitiva, sem cobrança de honorários advocatícios pela desistência.
A medida poderá beneficiar mais de 3,6 milhões de microempreendedores, com o perdão de mais de R$ 18,7 bilhões em dívidas. O valor médio dos débitos é de aproximadamente R$ 3,4 mil.
Limite de faturamento do MEI aumenta em 2027 e 2028
O limite anual de faturamento passará dos atuais R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. A proposta também permite a contratação de até dois empregados, em vez de apenas um.
O teto de faturamento não é atualizado desde 2018. Com a mudança, os empreendedores poderão ampliar a receita sem precisar deixar o regime simplificado tão cedo, mantendo o pagamento mensal do DAS.
A alteração também poderá beneficiar empresas do Simples Nacional com faturamento anual de até R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, que poderão voltar a se enquadrar como MEI, conforme as regras previstas na proposta.
Mais oportunidades nas compras públicas
A legislação amplia as oportunidades de contratação de pequenos negócios pelo poder público. O valor das licitações exclusivas para microempresas e empresas de pequeno porte sobe de R$ 80 mil para R$ 130.984,20.
O texto também prevê preferência para MEIs em licitações de contratos de até R$ 25 mil. Na plataforma Contrata+Brasil, o limite por serviço passa de R$ 13.098,41 para R$ 25 mil, um aumento de aproximadamente 91%.
A ferramenta aproxima os microempreendedores individuais dos órgãos públicos que precisam contratar serviços.
Até 13 de outubro de 2026, o programa havia registrado 8.356 contratos finalizados, que somavam R$ 47,9 milhões. Ao todo, eram 24.537 MEIs e 2.744 órgãos cadastrados, além de 245 oportunidades abertas.
Confira o que muda com o PLP 186/2026
- Perdão de dívidas: remissão integral dos débitos inscritos ou não na Dívida Ativa da União, conforme as condições previstas na lei.
- Teto de faturamento: aumento de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028.
- Contratação de empregados: possibilidade de contratar até dois funcionários, em vez de um.
- Compras públicas: limite das licitações exclusivas para microempresas e empresas de pequeno porte sobe de R$ 80 mil para R$ 130.984,20.
- Contrata+Brasil: limite para contratações de MEIs aumenta de aproximadamente R$ 13 mil para R$ 25 mil.
O projeto foi aprovado pelo Senado Federal em votação nominal, com 78 votos favoráveis, nenhum contrário e nenhuma abstenção. A Câmara dos Deputados já havia aprovado a proposta por 461 votos a 4.
O Prospera MEI também reúne outras medidas, como a renegociação de dívidas bancárias pelo Desenrola 3.0, com desconto mínimo de 90% na compra das carteiras de crédito pelas instituições financeiras; apoio não reembolsável de até R$ 5 mil para investimentos nos pequenos negócios, por meio do PixMEI, com limite de até 1 milhão de beneficiários entre 2027 e 2030; e dispensa da emissão de notas fiscais nas vendas de MEIs para pessoas físicas.
Os nanomeis ficam dispensados de emitir notas fiscais em todas as vendas e também de criar CNPJ, conforme as condições previstas no pacote.
PEC propõe recursos para tarifa zero no transporte coletivo
A PEC encaminhada por Lula ao Congresso Nacional acrescenta os parágrafos 21 a 23 ao artigo 166 da Constituição Federal para prever a destinação de parte dos recursos de emendas parlamentares impositivas ao custeio da gratuidade dos serviços de transporte público coletivo urbano ou de caráter urbano.
Pela proposta, o Poder Executivo Federal destinará, no mínimo, 26,8% do montante global anual das programações de execução obrigatória provenientes de emendas parlamentares individuais e de bancada para essa finalidade. O valor deverá ser alocado em uma categoria de programação específica no projeto de lei orçamentária do respectivo exercício.
A medida prevê a transferência obrigatória dos recursos aos entes federados responsáveis pelos serviços de transporte coletivo, nos termos da lei. Também preserva o percentual destinado às ações e aos serviços públicos de saúde previsto na Constituição Federal.
Como referência, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027 prevê R$ 44,8 bilhões em emendas parlamentares de execução obrigatória. Pela regra proposta, cerca de R$ 11,2 bilhões seriam destinados ao custeio da gratuidade do transporte público coletivo, montante com potencial para financiar a tarifa zero aos fins de semana e feriados.
A iniciativa busca ampliar o acesso da população ao trabalho, aos serviços públicos, à cultura e ao lazer, reduzindo as barreiras impostas pelo custo das passagens. A justificativa também destaca a importância da gratuidade para o direito dos trabalhadores ao lazer, ao convívio familiar e à saúde, especialmente no contexto da aprovação do fim da escala 6×1.
Os dispositivos relativos à destinação dos recursos produzirão efeitos a partir da lei orçamentária anual de 2027. Segundo a justificativa da proposta, a medida não implica aumento da despesa primária nem afeta a meta de resultado primário, pois prevê a destinação de recursos dentro do montante de emendas parlamentares impositivas já estabelecido na Constituição Federal.






