A dança pode ser uma poderosa ferramenta de inclusão social quando técnica, cultura e pertencimento caminham juntos. É dessa combinação que nasceu o Sambalé, metodologia criada pela bailarina e coreógrafa Andreia Zaida, primeira bailarina clássica negra de Santa Catarina, e aplicada na Casa Cidades Invisíveis, em Florianópolis (SC), onde é oferecida gratuitamente a crianças em situação de vulnerabilidade social para fortalecer autoestima, disciplina, expressão corporal e vínculos.
A proposta une a técnica do balé à força cultural do samba, duas linguagens que fazem parte da trajetória da bailarina, que também foi Rainha do Carnaval de Florianópolis em 2002. O nome da metodologia surgiu justamente desse encontro: durante uma entrevista, um repórter utilizou pela primeira vez o termo “Sambalé” para definir a fusão entre os dois universos, expressão que foi incorporada por Andreia e passou a representar uma abordagem que combina técnica, musicalidade, ludicidade e criatividade.
“Durante minha formação no balé clássico, quase sempre eu era o único corpo negro na sala. Com o tempo, entendi que essa ausência era consequência da falta de acesso e pertencimento. O Sambalé nasceu da vontade de unir a técnica do balé à força e à ancestralidade do samba, valorizando o corpo brasileiro e mostrando que é possível produzir técnica sem abrir mão da nossa identidade”, explica Andreia Zaida.
Na prática, as aulas estimulam consciência corporal, coordenação motora, ritmo, improvisação, trabalho coletivo e expressão emocional. A metodologia valoriza o percurso artístico e o brincar como parte do aprendizado, criando um ambiente em que as crianças desenvolvem confiança para experimentar, criar e fortalecer vínculos com o grupo. Ao respeitar o ritmo e a individualidade de cada participante, a iniciativa transforma o ensino da dança em uma experiência de desenvolvimento físico, emocional e social.

“O Sambalé também é uma forma de dizer às novas gerações que elas podem ocupar qualquer espaço da dança sem negar quem são. A técnica deve ampliar a identidade de cada criança, nunca apagá-la. Quando elas passam a reconhecer o próprio potencial, a dança cumpre um papel que vai muito além da formação artística”, destaca a coreógrafa e bailarina.
Os primeiros resultados já aparecem dentro e fora da sala de aula. Embora esteja em seu ciclo inicial, a iniciativa registra ocupação total das vagas e não teve evasão desde o início das atividades, em abril. Educadores observam avanços na autoestima, no sentimento de pertencimento, na disciplina, na consciência corporal e na convivência entre as participantes. As famílias também acompanham esse processo por meio de uma rede de apoio formada por psicóloga, assistente social e educadora, fortalecendo o desenvolvimento das crianças.
“Mesmo nos primeiros meses da oficina, já percebemos mudanças importantes na autoestima, no sentimento de pertencimento e na convivência entre as crianças. A dança tem se mostrado um espaço seguro para que elas desenvolvam confiança, consciência corporal e disposição para enfrentar novos desafios, sempre respeitando o tempo de cada uma”, afirma Karoline dos Santos, assistente social da Casa.
Na instituição, o Sambalé integra um conjunto de iniciativas voltadas à ampliação do acesso à cultura, à educação e ao desenvolvimento humano em territórios de maior vulnerabilidade social. Atualmente, 16 meninas, entre 7 e 12 anos, participam das aulas semanais e recebem, além da formação em dança, uniforme, lanche e acompanhamento psicossocial. Ao incorporar gratuitamente a metodologia criada por Andreia Zaida, a organização reforça seu compromisso de transformar a arte em uma ferramenta de inclusão, criando oportunidades para que crianças desenvolvam talentos, fortaleçam vínculos e ampliem suas perspectivas de futuro.
Sobre a Casa Cidades Invisíveis e o Cidades Invisíveis
Inaugurada em setembro de 2025, no Calçadão da João Pinto, no Centro de Florianópolis, a Casa Cidades Invisíveis é a sede do Cidades Invisíveis, organização social criada em 2012 na capital catarinense. O espaço promove formação, acolhimento e geração de oportunidades para crianças, adolescentes, adultos e famílias em situação de vulnerabilidade, dando continuidade ao trabalho de transformação de realidades e combate às desigualdades desenvolvido pela organização.
Além do Sambalé, a instituição oferece gratuitamente atividades como aulas de corte e costura, informática, jiu-jítsu, yoga e pintura, beneficiando cerca de 200 pessoas. A manutenção das atividades é viabilizada pelo apoio de parceiros que patrocinam a Casa, como Café com Deus Pai, IBR Engenharia, Select Soluções e Vai Voando.
Presente em diferentes cidades do Brasil, o Cidades Invisíveis desenvolve projetos em parceria com artistas, empresas e comunidades, destinando recursos para iniciativas de impacto social. Em mais de 14 anos de atuação, a organização já impactou mais de 140 mil vidas, com ações alinhadas à Agenda 2030 da ONU e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).






