No Dia Internacional de Combate às Drogas, celebrado em 26 de junho, especialistas reforçam a importância de combater o preconceito relacionado à dependência química e ampliar o acesso ao tratamento. Em Balneário Camboriú, a data chama atenção para um dos principais desafios enfrentados por pacientes e familiares: o estigma que ainda envolve essa condição de saúde.
Apesar dos avanços científicos, ainda é comum que pessoas com dependência química sejam vistas como irresponsáveis, fracas ou incapazes de controlar suas escolhas. Para a psiquiatra Raquel Basso, da Clínica Bem Viver, essa percepção equivocada dificulta tanto a prevenção quanto a recuperação.
“A dependência química é uma doença complexa, multifatorial, que envolve aspectos biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Não se trata de falta de caráter ou de força de vontade. Quando a sociedade compreende isso, conseguimos oferecer mais acolhimento e aumentar as chances de que essas pessoas procurem ajuda”, afirma.

Alterações no cérebro explicam a dificuldade em parar
Segundo Raquel, estudos científicos mostram que o uso contínuo de substâncias provoca alterações importantes em regiões do cérebro relacionadas ao prazer, à motivação, ao controle dos impulsos e à tomada de decisões.
“Essas mudanças ajudam a entender por que muitas pessoas continuam usando drogas ou álcool mesmo diante de prejuízos evidentes na vida pessoal, profissional e familiar. Não é uma questão simples de escolha”, explica.
A médica destaca que compreender a dependência química como uma condição de saúde é fundamental para reduzir julgamentos e fortalecer estratégias de tratamento baseadas em evidências.
Recuperação é possível
Se a ciência comprova os impactos da dependência química no funcionamento cerebral, ela também demonstra que a recuperação é possível.
De acordo com Raquel, a neuroplasticidade, capacidade que o cérebro possui de se reorganizar ao longo da vida, permite avanços significativos quando o paciente recebe acompanhamento adequado e mantém a abstinência.
“Com acompanhamento médico, psicológico e suporte familiar, muitas funções afetadas pelo uso de substâncias podem ser recuperadas. A pessoa pode reconstruir vínculos, retomar projetos de vida e recuperar sua qualidade de vida”, destaca.
Álcool também merece atenção
Embora o debate sobre drogas geralmente esteja concentrado nas substâncias ilícitas, especialistas alertam que o álcool continua sendo uma das substâncias mais consumidas e frequentemente banalizadas pela sociedade.
Presente em festas, confraternizações e encontros sociais, o consumo de bebidas alcoólicas costuma ser visto com naturalidade, o que pode dificultar a identificação de padrões abusivos.
“O álcool é uma substância psicoativa que também pode causar dependência e gerar impactos importantes na saúde física e mental. Muitas vezes, por ser socialmente aceito, seus riscos acabam sendo minimizados”, observa a psiquiatra.
Família tem papel fundamental
Outro ponto destacado pelos especialistas é a importância dos vínculos familiares na prevenção e no tratamento da dependência química.
Relações baseadas em diálogo, acolhimento e apoio emocional funcionam como fatores de proteção, especialmente durante a infância e a adolescência. Já durante o tratamento, o suporte familiar pode contribuir para a adesão terapêutica e para a continuidade da recuperação.
“A família não é responsável pela dependência química, mas pode ser uma grande aliada no processo de recuperação. O acolhimento, sem julgamentos, faz toda a diferença”, ressalta Raquel.
Clínica Bem Viver promove atividades de conscientização
Para marcar o Dia Internacional de Combate às Drogas, a Clínica Bem Viver, localizada em Camboriú, preparou uma programação especial voltada aos pacientes em tratamento.
No dia 26 de junho será realizado um Sarau Terapêutico, com apresentações de música, pintura, dança, trabalhos em argila e outras expressões artísticas relacionadas à recuperação e à transformação pessoal.
A programação também inclui uma palestra conduzida pela equipe de Psicologia da instituição, abordando prevenção, conscientização e enfrentamento da dependência química.
Já no espaço Bem Viver Dia, na Praia dos Amores, em Balneário, as atividades ocorrerão ao longo da semana, com dinâmicas e ações terapêuticas voltadas à reflexão sobre os impactos do uso de substâncias e à valorização da saúde mental.
Um desafio coletivo
Para os especialistas, o enfrentamento da dependência química não depende apenas dos serviços de saúde. Famílias, escolas, empresas, comunidades e o poder público também têm papel importante na construção de redes de apoio e ambientes mais saudáveis.
“Precisamos combater não apenas as drogas, mas também a desinformação e o preconceito. Informação, acolhimento e acesso ao tratamento continuam sendo ferramentas fundamentais para que mais pessoas possam encontrar caminhos de recuperação”, conclui Raquel Basso.






